A certeza cega

Você já deve ter ouvido por aí a palavra “mártir”.
Basicamente, é uma pessoa que morre em favor de um ideal. Algo que é muito importante para ele, e normalmente para todos, mas que prova um ponto.

Santo Estevão é considerado o primeiro mártir da Igreja Católica, por exemplo, morreu apedrejado em Jerusalém por se recusar a abrir mão da crença em Jesus.

Sócrates é considerado mártir porque começou a beber veneno ao questionar as autoridades gregas.

Joana D’arc também sucumbiu por questões políticas e religiosas.

Martin Luther King Jr. virou mártir porque pregava que somos todos iguais, independentemente da cor.

Se forçar a amizade, temos até mesmo Tiradentes, que morreu porque queria a independência (de Minas, não do Brasil, mas essa é outra história).

O que esse pessoal tinha em comum?
A certeza.
Algo particular.
Algo herdado da experiência.

Não foram arrebatados por um post no Facebook.
Não acreditaram em um grupo do Whatsapp.

Viam.
Viviam.
Entendiam.
Lutavam.
Sucumbiam.

Não entregaram a própria vida para defender alguém.
Entregaram a própria vida para defender uma ideia. Algo maior.

Diz a história que Estevão, antes de morrer, perseguido por aquele que era seu cunhado, não o amaldiçoou ou pediu para que a irmã o censurasse. Apenas morreu feliz por estar com a irmã que não via há muito tempo e por ter entregue até o último segundo de vida para celebrar o amor e o perdão preconizados por Cristo.

Não se engane.
Não há mais mártires.
Possivelmente não haja nem mesmo espaço para eles.

Há, sim, charlatões que se acercam da boa-fé alheia para vender um paraíso ou um inferno que não existem.

Há os que se aproveitam da ingenuidade e crença cega na personalidade para fazer dinheiro. Para emocionar e criar inimigos.

Não há mais mártires nacionais.
Há sim, milhões de mártires anônimos que aguentam as pressões para sustentar suas famílias. Há os que, apesar das dificuldades, auxiliam, não importa se é A ou B.

Não importa se o pé é direito. Se o pé é esquerdo.
Não importa se o emprego vem de Havana ou do Cacau.
Importa a vida das pessoas.

E a vida das pessoas precisa ter mais valor que o discurso fácil.
Que a postagem nas redes.
Que um gole de Ypê para provar um ponto que já foi provado:
a doença da sociedade.

A certeza cega.
Ainda que cheia de boas intenções.
Cega.
Vale a questão, sempre, para todos os lados, incluindo esse texto:

– Será?

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