A cena era clássica:
Chegava visita, parente distante ou um novo amigo na sua casa e surgiam os álbuns de fotografia. Testemunhas impressas de várias vidas. Ali entre o ar surpreso com uma foto espontânea, ou um “não sabia que vocês tinham ido lá”, vinha o tema dessa coluna:
“Quem era esse?”
Um rosto desconhecido, mas estranhamento familiar.
Alguém inserido em um ambiente conhecido.
Uma vida que aconteceu.O papo continuava a depender de “quem era esse”.
– Ah, esse era o meu pai.
– Ah, esse é o ex-namorado da Julieta.Enfim, aquele rosto seguia “vivo” nas imagens, nas memórias de quem o apresentava impresso entre um álbum e outro.
Até que… tudo mudou e passamos a desaparecer mais cedo, e a questão é só uma: tecnologia.
Vamos ao cinema para entendermos melhor essa parte.
Em “Viva – A Vida é uma Festa” a questão da lembrança sobre os mortos é central.
Os esquecidos, simplesmente desaparecem.
Para mantê-los no “mundo espiritual”, há, na casa das pessoas, fotos em um pequeno altar.Fotos.
Esse é o ponto.
Não imprimimos mais fotos.Agora pare um pouco e pense na sua vida.
Você imprime fotos ou está tudo no celular, na nuvem?
99% não imprimem mais nada.
Ok, normal.E quando você “fechar os olhos pela última vez?”
Essas fotos.
Essas lembranças de quem você foi, de como você era, os lugares que frequentava, tudo isso vai morrer junto com a bateria do celular, com o pagamento da nuvem não renovado.E a sua vida estará presente, apenas na cabeça daqueles que o conheceram e nunca haverá um:
”Quem era esse?”
Você não será mais visto.
E por fim, deixará de existir por completo quando as pessoas que o conheciam também se forem, recomeçando o ciclo.Aí você pode estar se perguntando:
– Ah, mas agora tem as redes sociais. Elas sempre estarão lá, assim como minhas fotos.Sempre?
Palavra muito abrangente.
E não, elas não estarão “sempre” lá. Cadê o Orkut? O Wave? Alguém disse ICQ?
Mas, e somente MAS, elas continuarem a existir, você ainda precisaria ser encontrado, e, sendo encontrado, seria apenas uma imagem, não uma história, não uma vida.Talvez seja bom.
Não deixamos pilhas de fotos para alguém que não as pediu.
Talvez seja ruim.
Afinal, todos deixamos coisas boas que merecem ser relembradas.
Talvez seja apenas a vida acontecendo.Talvez.